QUARTA-FEIRA I DA QUARESMA – A.D. 2016

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Textos: Jn 3, 1-10; Sl 50(51); Lc 11, 29-32.

 

A irrupção do Reino de Deus na pessoa de Jesus exige conversão para acolher o dom da salvação de Deus (cf. Mc 1, 15). Para crer em Jesus, as pessoas do seu tempo exigem dele um sinal espetacular, diríamos, cinematográfico, ao estilo dos melhores recursos de efeitos especiais hodiernos. A geração do tempo de Jesus exige uma prova inequívoca da divindade de Jesus.

O sinal requerido de Jesus, que corresponde à terceira tentação (cf. Lc 4, 9-12), e de que se fala, aqui, é um gesto grandioso e espetacular capaz de levar as pessoas a crerem na sua divindade. A multidão que acorre a Jesus busca um sinal (cf. Lc 11, 29). A esta solicitação Jesus responde: … nenhum sinal lhe será dado a não ser o sinal de Jonas (Lc 11, 29). Lucas explicita o sentido deste sinal: assim como Jonas tornou-se um sinal para os ninivitas, do mesmo modo o Filho do homem será um sinal para esta geração (Lc 11, 30). Trata-se de um chamado à penitência e à conversão, em vista da salvação; e, convenhamos, isso é muito diferente de um prodígio espetacular. Diante do anúncio de Jonas os ninivitas fizeram penitência e acreditaram em Deus (cf. Jn 3, 4). O apelo é de não subordinar a fé em Jesus a nenhum prodígio ou prova. Os seus gestos e palavras, a sua coerência, o seu serviço e a sua vida entregue por amor é que fazem de Jesus alguém digno de confiança e são sinais que revelam sua filiação divina. Observe que, como se trata de sinais, é preciso que sejam sempre discernidos.

A fé em Jesus não está subordinada a nenhum ato espetacular e grandioso; ela é dom recebido pelo testemunho daqueles que foram testemunhas oculares de tudo o que Jesus fez e ensinou. A fé nasce do encontro da pessoa com o Ressuscitado. Deste modo, exigir um sinal para crer é tentar Deus. Em nossos dias, há muitíssimas pessoas que vivem exigindo de Deus provas de sua existência e de sua vontade. As pessoas que assim pensam, se eximem do esforço do discernimento exigido pela fé autêntica. Tal reinvindicação é incredulidade. Há certos esquemas mentais que impedem de reconhecer a visita salvífica de Deus em Jesus pois defendem que é “necessário ver para crer”. Como no relato das tentações, Jesus se recusa satisfazer a esta exigência tal qual solicitada pela “geração má” que resiste à conversão. A evocação do episódio de Jonas serve para fazer apelo à penitência e à conversão, necessárias para acolher o Reino de Deus que se faz presente na pessoa de Jesus (cf. Mc 1, 15). É pela penitência e conversão que se alcança a purificação do coração, condição para reconhecer que tudo o que Jesus faz e ensina é sinal; a vida inteira de Jesus é um sinal. O coração livre de todo apego é condição para acolher o mistério de Deus tal qual ele se revela em Jesus Cristo. Para o discípulo, para quem o texto é escrito, portanto, para cada um de nós, trata-se de não subordinar a fé em Jesus a algum prodígio espetacular.

P.Carlos Alberto Contieri, SJ.

 

 

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Textos: Is 55, 10-11; Sl 33(34); Mt 6, 7-15.

 

Na quarta-feira de cinzas, nós dizíamos, à luz dos textos da liturgia da palavra, que dos cristãos é exigido a rejeição deliberada de todo tipo de hipocrisia; essa máscara se opõe à vida autenticamente cristã e empalidece mortalmente o testemunho cristão. É nesse contexto, que se insere a oração que Jesus ensina aos seus discípulos. A oração cristã dá prioridade à escuta da Palavra de Deus que é eficaz e produz seus frutos onde ela encontra “terra boa” (cf. Is 55, 10-11; Mt 13, 3b-9). Por isso, é necessário a renúncia do palavrório que pode obstaculizar a abertura da pessoa a Deus, que sabe e conhece tudo. Pedro disse a Jesus: Senhor tu sabes tudo… (Jo 21, 17).

Nós já comentamos este texto, como dissemos, grosso modo, na quarta-feira de cinzas. Ao combater a hipocrisia, Jesus apresenta a verdadeira e a falsa piedade. Isso, evidentemente, vale para o texto de hoje do evangelho. Não é a oração que está em questão, mas o modo de fazê-la. Deus conhece o coração de cada um, antes mesmo que as palavras cheguem à boca (cf. Sl 138[139]). Diante dele a multiplicação de palavras é inútil. Ademais, esta multiplicação de palavras é expressão da pressão exercida sobre Deus para conseguir algo dele. O que Deus concede a seu povo é fruto de seu amor e de sua bondade e não de merecimento de quem quer que seja. A oração do Senhor é, para o discípulo, referência no modo de relacionar-se com Deus. Esta oração exprime, em primeiro lugar, a centralidade de Deus e o engajamento filial do discípulo com relação ao Pai. Em seguida, o discípulo, consciente de sua condição suplica pelo que deve sustentá-lo na vida cotidiana: pão e perdão. Por fim, como o mal está presente no coração do ser humano, o cristão pede de, pela graça de Deus, não ser envolvido pelo poder da tentação, mas liberto de todo mal.

P. Carlos Alberto Contieri, SJ.

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Textos: Lv 19, 1-2.11-18; Sl 18(19); Mt 25, 31-46.

 

Trata-se de um discurso escatológico, isto é, um discurso sobre o fim ou, melhor, sobre o que é definitivo. Esse discurso, de certa maneira, resume todo o evangelho e, de modo particular, o essencial dos capítulos 24 e 25 de Mateus. Ele nos ajuda a compreender o que é necessário fazer e qual deve ser, em razão de nossa fé, nosso engajamento no tempo presente. A fé em Jesus Cristo tem consequências éticas para a vida do cristão, pois, ela exige a caridade discreta: assim como eu vos amei, amai-vos uns aos outros (Jo 15, 12). A manifestação definitiva do mistério do Reino de Deus se dá em gestos pequenos, mas significativos e até decisivos. Alguns destes gestos, como os elencados em nosso texto, fazem parte de nossa vida cotidiana: dar de comer aos que têm fome, de beber aos que têm sede, vestir os que estão nus, etc. O que é dito no texto vale não somente para os cristãos, mas para todo ser humano que vive neste mundo. É bastante provável que Ez 34, 17-22, tenha servido de inspiração para este discurso escatológico. Lá também encontramos a separação de ovelhas, carneiros e bodes pelo pastor. A separação, ou juízo, é feita em razão da vida vivida na caridade ou pela indiferença diante do sofrimento e das necessidades alheias. Somente o olhar penetrante do pastor, do Filho do Homem, Juiz da história, que ultrapassa as aparências e vê o coração de cada um, pode, com verdade, conhecer a situação de cada um e o que se é de fato. Se o texto fala de condenação é para fazer apelo a viver no amor que exige o cuidado e o serviço ao semelhante. O trecho do livro do Levítico é um bom exemplo do cuidado a ter com o próximo: Amarás o teu próximo como a ti mesmo (Lv 19, 18).

Em sua homilia em Lampeduza, na Itália, o Papa Francisco alertava: “A cultura do bem-estar, que nos leva a pensar em nós mesmos, torna-nos insensíveis aos gritos dos outros, faz-nos viver como se fôssemos bolas de sabão: estas são bonitas, mas não são nada, são pura ilusão do fútil, do provisório. Esta cultura do bem-estar leva à indiferença a respeito dos outros; antes, leva à globalização da indiferença. Neste mundo da globalização, caímos na globalização da indiferença. Habituamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é responsabilidade nossa!” É preciso pedir perdão pelo comodismo, pela indiferença diante do sofrimento de tantas pessoas, pelo fechamento no próprio bem-estar que “anestesia o coração”.

P. Carlos Alberto Contieri, SJ.

 

 

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Textos: Is 58, 9-14; Sl 85(86); Lc 5, 27-32.

A natureza mesma do relato evangélico não permite a seu autor se perder em detalhes. Não há palavras nem detalhes supérfluos. A história é dita em poucas linhas, como é a história do encontro de Jesus com Levi, um cobrador de impostos. A brevidade do relato aguça a imaginação do leitor do Evangelho a ponto de lhe permitir refazer a história daquele homem transformado pela irrupção do Senhor na sua vida.

Tudo começa com o olhar de Jesus à Levi: Jesus viu um cobrador de impostos, chamado Levi, sentado na coletoria (Lc 5, 27). Trata-se de olhar penetrante, contemplativo, que ultrapassa a aparência para entrar no coração do ser humano. Assim é o olhar de Deus sobre as pessoas, sobre cada um de nós: “Deus vê o coração”. A visão de Deus sobre a pessoa não é fragmentada, mas vê cada um integralmente. Com esse olhar em profundidade, Jesus não ignora as limitações de quem ele chama. O cobrador de impostos é tido como pecador e, como tal, impuro; a serviço da autoridade romana, ele se enriquecia explorando o povo. Ao irem se fazer batizar por João, eles lhe perguntavam: Mestre, que devemos fazer? Ele disse: não deveis exigir nada além do que vos foi prescrito (Lc 3, 13). Jesus, no entanto, se apresenta como o “médico” que cura todas as nossas enfermidades (cf. v. 31) e chama, por sua iniciativa e misericórdia, os pecadores à conversão (cf. v. 32).

O banquete oferecido a Jesus por Levi em sua casa (cf. v. 29) é festa por ter sido encontrado por aquele por quem ele passaria a viver a sua vida; é, ao meso tempo, festa de despedida, pois começa para ele uma nova etapa da vida transformada pelo encontro com o Senhor. Os seus amigos estão presentes, um grande número de publicanos, reconhecidos pelos judeus praticantes como impuros, pecadores públicos, pessoas na casa de quem um justo não pode entrar nem assentar-se à mesa com eles (cf. v. 30; 19, 7; 15, 1-2), sob pena de tornar-se impuro. A mesa, a refeição são símbolos de amizade, comunhão, acolhida, solidariedade e antecipação do banquete escatológico. Eis a razão da murmuração dos escribas e fariseus. Esses fiéis observantes da Lei se esqueciam da misericórdia de Deus (cf. Mt 23, 23). Mas, não há quem Jesus não acolha e quem não possa acolhê-lo. A participação no banquete na casa de Levi é para Jesus ocasião de mostrar que ninguém está excluído da alegria da salvação. O amor de Deus, sua misericórdia tem absoluta precedência em referência a qualquer regra, inclusive em relação às regras de pureza que excluem pessoas da comunhão com Deus, do convívio fraterno, e desculpa os que se eximem do dever de socorrer o moribundo (ver: Lc 10, 25-37). É a presença do Senhor que purifica e santifica a todos, e integra a todos na comunhão com Deus. O nosso texto é, ainda, ocasião para afirmar, com clareza, a missão de Jesus: Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores para que se convertam (v. 32; cf. Lc 19, 10).

Pe. Carlos Alberto Contieri, SJ

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Textos: Is 58, 1-9; Sl 50 (51); Mt 9, 14-15.

João Batista, nós o sabemos, foi o precursor do Messias, um pregador destemido do deserto da Judeia que exortava a todos à conversão e que realizava um batismo para o perdão dos pecados; foi o último e o maior de todos os profetas; foi considerado por Jesus como o maior entre os nascidos de mulher (cf. cf. Mt 11, 11). João era um asceta: usava uma roupa de pelos de camelo e um cinturão de couro em torno dos rins. Seu alimento consistia em gafanhotos e mel silvestre (Mt 3, 4). Mas, dos seus discípulos, nós não temos informação acerca de sua conduta e do jejum que praticavam.
Nosso texto é uma controvérsia entre os discípulos de João e Jesus acerca do jejum não observado pelos discípulos do Nazareno. Certamente, embora o texto não nos informe, não se trata do jejum prescrito pela Lei de Moisés. Dos fariseus, Lucas nos informa que eles jejuavam duas vezes por semana (Lc 18, 12), mas dos discípulos de João, como dissemos acima, nós não temos qualquer notícia, quanto a esta prática, em todo o Novo Testamento. O único dia de jejum prescrito pela Lei de Moisés é para o dia do perdão (cf. Lv 23, 26-32). Os fariseus que se consideravam a si mesmos como justos queriam impor a todo o povo as suas práticas ascéticas. É bastante provável que é disso que se trata. Jesus antes de iniciar o seu ministério público jejuou durante quarenta dias (Mt, 4, 2; Lc, 4, 2). Há, no Antigo Testamento, passagens em que um jejum puramente exterior, incapaz de transformar a vida da pessoa, é duramente criticado. Isaías e Zacarias, por exemplo, relativizam o jejum em face do amor e a misericórdia que são exigências primordiais da Lei (Is 58, 1-12; Zc 7).
O jejum é algo que se faz diante de Deus, e é dirigido a Deus; o jejum é uma palavra dita a Deus. Na quarta-feira de cinzas, nós lemos e escutamos: Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio …, mas perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os homens não saibam que estás jejuando, mas apenas o teu Pai que vê no segredo (Mt 6,16-18).
Jesus, no entanto, centra a prática do jejum na cristologia, a saber, é em relação à ausência do “noivo”, uma referência à sua morte, que o jejum deve ser praticado. Seguindo esta linha de raciocínio, a Igreja prescreve para os cristãos católicos o jejum na sexta-feira santa.
No entanto, aproveito a oportunidade para fazer essa constatação, em nossos dias, a palavra “jejum” tem desaparecido do léxico e da prática religiosa; ela serve à prescrição médica ou laboratorial ou, ainda, como parte de alguma dieta de emagrecimento. O jejum de nossos dias serve, ainda, de “arma”, de protesto, sob forma de greve de fome para fazer um adversário ceder frente a alguma reivindicação. A sexta-feira sem carne, prática bastante comum do passado, hoje, é só uma recordação. O tempo da quaresma, de modo geral, não parece mudar significativamente nosso cardápio cotidiano.
Para nós, cristãos católicos, é preciso não permitir que caia no esquecimento ou seja prisioneiro do laxismo a prática do jejum discernido como meio de vencer as afeições desordenadas. Da prática do jejum, diz São Leão Magno: “… Amados filhos, aquilo que cada cristão deve praticar em todo tempo, deve praticá-lo, agora, com maior zelo e piedade, para cumprir a prescrição, que remonta aos apóstolos, de jejuar quarenta dias, não somente reduzindo os alimentos, mas, sobretudo, abstendo-se do pecado” (Dos Sermões de S. Leão Magno).

P. Carlos Alberto Contieri, SJ.

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Bom dia a todos!

 

Hoje, 10 de fevereiro, quarta-feira de cinzas, começamos a quaresma, tempo propício e favorável à conversão. Esse tempo de graça, é um itinerário espiritual cuja finalidade é nos preparar para a celebração da Páscoa do Senhor, centro da vida e da fé cristã. A conversão exigida de todos nós (cf. Mc 1, 15) é, sobretudo, confiança na pessoa e na palavra de Jesus Cristo, o Evangelho de Deus para toda a humanidade. É essa confiança que transforma radicalmente a vida. Creio que para todos nós, será uma oportunidade de, ao menos, desejar uma profunda e verdadeira conversão: do coração, das atitudes, da mentalidade, do olhar para que sejamos misericordiosos como Deus é misericordioso (Lc 6, 36). A conversão é graça a ser pedida, pois, é dom de Deus, mas, ao mesmo tempo, exige o nosso esforço e o emprego dos meios adequados para alcançar a graça que queremos.

O tempo da quaresma, como preparação para a Páscoa do Senhor, deve ser vivido, por nós cristãos, numa maior disposição para escutar a palavra de Deus e deixá-la, através da oração cotidiana, penetrar no mais profundo do coração e produzir os seus frutos. Entre tantos e tão abundantes frutos, está o amor pela verdade que liberta o coração do ser humano (cf. Jo 8, 32). Nesse sentido, é bom que, no nosso exame de consciência, nós nos perguntemos e nos esforcemos por identificar nossas afeições desordenadas e nossas susceptibilidades que nos distanciam das outras pessoas. O “olho mau” impede de ver o valor e os dons de cada pessoa e faz com que nos fechemos em nossas próprias ideias e, o pior, num juízo desprovido da caridade e da misericórdia. A “dureza do coração” nos faz sofrer e impede de reconhecer o tempo da visita salvífica de Deus.

Convertamo-nos sinceramente ao amor de Deus. “Abandonemos as obras más, a discórdia e a inveja que conduzem à morte. Sejamos humildes de coração, irmãos, evitando toda espécie de vaidade, soberba, insensatez e cólera …” (Da Carta aos Coríntios, de São Clemente I).

A partir desta quarta-feira, no site do Pateo do Collegio, na aba “Nos passos de Jesus”, irei pondo o comentário dos textos da liturgia diária, cuja finalidade é dupla: ajudar a compreender a palavra de Deus e ser um apoio para a oração pessoal e cotidiana.

Desejo a todos um bom início da Quaresma com a esperança de poder ver resplandecer, ainda mais, os frutos do nosso enraizamento em Cristo Jesus.

 

Um abraço fraterno!

 

Pe. Carlos Alberto Contieri, SJ

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