QUARTA-FEIRA III DA QUARESMA – A.D. 2016

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Textos: Dt 4, 1.5-9; Sl Sl 147(148); Mt 5, 17-19.

 

Durante a sua vida terrestre Jesus enfrentou a oposição de seus adversários que pensavam que o modo como ele interpretava e punha em prática a Lei e relia a Escritura era um sinal de que sua determinação era de abolir a Palavra de Deus. No embate apologético com o judaísmo rabínico essa dificuldade se prolongou no cristianismo primitivo. Nosso trecho do Evangelho, é parte do primeiro grande discurso do evangelho segundo Mateus, o sermão da montanha (5 – 7). O texto começa eliminando um equívoco: não penseis que eu vim abolir a Lei e os Profetas (v. 7a). A expressão “a lei e os profetas” não é um registro puramente jurídico, mas um modo de designar a Escritura na sua totalidade. Não há tensão entre os dois termos: a Lei é necessária para atestar e confirmar a veracidade da palavra profética, a profecia é indispensável para interpretar a Lei. Toda a Escritura é inspirada por Deus (cf. 1Tm 3, 16) e, enquanto tal, não pode ser abolida. Jesus veio para dar pleno cumprimento à Escritura (cf. v. 17b). A Lei é dada por Deus para preservar o dom da vida e da liberdade. Jesus leva à plenitude a Lei e os Profetas na medida em que ele é a realização da promessa e enquanto ele faz com que a Lei e os profetas estejam subordinados ao mandamento do amor a Deus e ao próximo (cf. Mt 22, 40). Com isso, Jesus oferece uma chave hermenêutica à qual todas as prescrições devem se ajustar: a Lei de Moisés continua válida, mas precisa ser interpretada à luz da revelação de Jesus Cristo (cf. 5, 17; 7, 12; 22, 40).

A centralidade de Jesus Cristo faz com que a exigência primordial do amor e da misericórdia se imponham como condição de autenticidade ou não de determinada interpretação e prática da Lei. O que tem precedência sobre quaisquer outras prescrições legais é o mandamento do amor (cf. Lc 10, 25-37). Deste modo, para o cristão, a lei de Moisés é válida enquanto ela passa pelo crivo da interpretação de Jesus.

P. Carlos Alberto Contieri, SJ.

 

 

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Textos: Dn 3, 25.34-43; Sl 24(25); Mt 18, 21-35.

 

O capítulo 18 do Evangelho de Mateus é denominado “discurso eclesiológico”. O tema dominante desse discurso sobre a Igreja, que visa orientar a vida em comunidade, é o perdão. A comunidade dos discípulos de Jesus Cristo é uma comunidade de reconciliados. Diante da pergunta de Pedro de quantas vezes se devia perdoar o irmão que peca contra alguém, Jesus responde com a parábola do devedor que perdoado pelo “patrão” de sua enorme dívida, não soube perdoar o seu companheiro que lhe devia muitíssimo menos. Pedro propõe um número abundante para o perdão, mas Jesus vai mais longe e diz “setenta vezes sete”. Isso significa que não se pode pôr limite à disposição de perdoar. As cifras “sete” e “setenta vezes sete” evocam Gn 4,24. À cadeia de vingança e violência, Jesus opõe a fraternidade disposta a perdoar sem limite. A razão do porquê não se deve colocar limite ao perdão é dada na parábola do devedor sem compaixão. O sentido de toda a parábola se encontra na boca do próprio monarca (vv. 32.33): o devedor de uma soma incalculável devia perdoar seu semelhante, que lhe devia uma quantia irrisória, porque ele mesmo tinha sido beneficiado pela generosidade do patrão.   De certo modo, o servo sem compaixão fere seu senhor, pois a sua atitude impiedosa em relação ao seu semelhante demonstra a sua total incompreensão em relação à graça que ele mesmo recebeu. A lição é clara: é necessário perdoar de coração o irmão, como Deus perdoa generosamente a cada um. Se Deus não estivesse sempre disposto a perdoar o que seria de nós?

São Pedro Crisólogo dizia: “Há três coisas, meus irmãos, três coisas que mantêm a fé, dão firmeza à devoção e perseverança à virtude. São elas a oração, o jejum e a misericórdia. (…) Homem, sê para ti mesmo a medida da misericórdia; deste modo, alcançarás misericórdia como quiseres, quanto quiseres e com a rapidez que quiseres; basta que te compadeças dos outros com generosidade e presteza.”

P. Carlos Alberto Contieri, SJ.

 

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Textos: 2Rs 5, 1-15; Sl 41(42); Lc 4, 24-30.

 

O evangelho de hoje é parte do discurso programático de Jesus, na sinagoga de Nazaré (Lc 4, 16-30). Trata-se da resposta de Jesus à incredulidade e resistência dos seus concidadãos. A evocação dos episódios dos profetas Elias e Eliseu permite estabelecer um paralelo entre Israel e Nazaré. Nazaré passa a ser protótipo da rejeição de Jesus por parte de todo Israel. Uma das temáticas dominantes de toda a primeira parte do evangelho de Lucas é a identidade de Jesus. Jesus é verdadeiro profeta num duplo sentido: é homem que recebe de Deus sua missão, e é rejeitado. A rejeição é um critério que permite verificar a autenticidade de sua vocação profética (cf. v. 24). A perseguição, a incompreensão, a vida ameaçada são alguns dos traços presentes na vida de todo verdadeiro profeta. Para se manter fiel à missão recebida de Deus, é preciso colocar-se inteiramente nas mãos do Senhor. Por isso, não há nada, nem mesmo a ameaça de morte, nem ninguém que possa impedir Jesus de prosseguir o seu caminho e realizar a vontade do Pai: Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho (v. 30).

Jesus é uma pessoa livre; ele não teme sequer a morte. Nós não seremos plenamente livres enquanto não superarmos o medo da morte. É Deus, diz São Leão Magno, quem “nos livra dos perigos para além de toda a esperança humana. Experimentemos, em nós mesmos, diz ainda o Apóstolo, a angústia de estarmos condenados à morte. Assim, aprendemos a não confiar em nós mesmos, mas a confiar somente em Deus que ressuscita os mortos. Ele nos livrou, e continuará a livrar-nos, de um tão grande perigo de morte. Nele temos firme esperança de que nos livrará, ainda, em outras ocasiões (2Co 1, 9-10).”

P. Carlos Alberto Contieri, SJ.

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Textos: Gn 37, 3-4.12-13.17-28; Sl 104(105); Mt 21, 33-43.45-46.

 

A inveja e a cobiça são os temas tanto do trecho do livro do Gênesis como do Evangelho; esses males e vícios estão na origem da tentativa de homicídio de José por parte dos seus irmãos (cf. Gn 37, 4.18-20) e da morte de Jesus (cf. Mt 21, 38-39).

A parábola tem por finalidade fazer um determinado público (discípulos, multidão, opositores de Jesus) compreender uma realidade e uma verdade difíceis de serem aceitas. Ela não é o retrato fiel da realidade, nem se deve buscar nela uma lógica rigorosa. Ela visa transmitir uma mensagem cujo conteúdo é o mistério de Deus e adequar o comportamento da pessoa de fé ao desígnio salvífico de Deus. No Antigo Testamento, a vinha é símbolo do povo de Deus, povo que Deus criou e escolheu e que Ele cuida com amor (cf. Is 5, 1-7). Entre os membros do povo de Deus, há aqueles que Deus escolheu para, em nome do Senhor, cuidarem e protegerem o povo que a Deus pertence. A parábola dos vinhateiros homicidas denuncia, em primeiro lugar, aqueles que, ao invés de cuidarem do povo, querem se apossar da vinha do Senhor. Para isso, rejeitaram todos os que foram enviados por Deus para alertá-los. É uma menção ao fim trágico de muitos profetas. Em segundo lugar, e esta é a intenção mais importante da parábola, ele faz o leitor compreender que a morte de Jesus foi premeditada e é fruto da inveja, da cobiça e da maldade deliberada (cf. vv. 38-39). Apesar, do v. 41, a parábola não possui um juízo condenatório; ela é, isto sim, um forte apelo a reconhecer em Jesus o dom de Deus e viver em conformidade com este dom e, nele, produzir bons frutos.

P. Carlos Alberto Contieri, SJ.

 

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Textos: Jr 17, 5-10; Sl 1; Lc 16, 19-31.

 

A vida eterna é dom de Deus, mas ela é preparada durante a nossa peregrinação terrestre. Para a vida cristã, essa preparação exige a prática do amor fraterno, da misericórdia, da solidariedade, do cuidado em relação aos outros, sobretudo com os que mais sofrem. Contrário a tudo isso é a riqueza que pode cegar e tornar-nos indiferentes ao sofrimento dos nossos irmãos. O Papa Francisco tem alertado que a cultura do bem-estar conduz à globalização da indiferença, como se o sofrimento de nossos semelhantes nada tivesse a ver conosco. Somente da região dos mortos, onde a situação do ser humano é irreversível, é que aquele rico anônimo compreende que a obediência à Lei, em cujo centro está a misericórdia, é o meio de entrar no Reino de Deus (cf. v. 29). Por isso, em vão, ele pede que Abraão envie Lázaro para alertar os seus irmãos. A resposta de Abraão alerta todos os discípulos e, com eles, o leitor do evangelho de que o meio para entrar no Reino de Deus está na meditação da Escritura, a que se deve dar ouvidos. Se este meio é rejeitado, não há nada que poderá demover quem quer que seja de sua má conduta (cf. v. 31). A todos nós Deus oferece os meios para viver a vida de Deus. Estes meios estão consignados na Palavra de Deus que é uma luz para o nosso modo de proceder. A Lei e os Profetas são dados para esta vida em vistas do Reino de Deus. É preciso dar o tempo necessário, abrir no nosso dia-a-dia o espaço de silêncio para meditar a Palavra de Deus.

O risco dos contemporâneos de Jesus continua sendo o nosso: viver a vida como se Deus não existisse; esquecer que o mandamento do amor ao próximo e ao inimigo nos obriga. Com o Sl 1 nós dizemos: Feliz é todo aquele (…) que encontra seu prazer na lei de Deus e a medita dia e noite, sem cessar (v. 1).

P. Carlos Alberto Contieri, SJ.

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Textos: Jr 18, 18-20; Sl 30(31); Mt 20, 17-28.

 

No caminho de subida para Jerusalém, Jesus faz para os doze discípulos o terceiro anúncio da sua paixão, morte e ressurreição (ver: Mt 16, 21; 17, 22-23). Trata-se de uma prolepse que interessa ao ouvinte e leitor do evangelho. Finalidade desta antecipação literária é prevenir o discípulo de todos os tempos contra o escândalo da paixão e da morte do Senhor. A esperança da ressurreição deve sustentar a vida de todo aquele que, livremente, aceita o chamado de seguir Jesus Cristo no caminho que o conduz ao Pai.

É importante notar que, depois de cada um dos três anúncios, se manifesta a incompreensão e a rejeição dos discípulos acerca do destino de Jesus e do desígnio salvífico de Deus: Pedro busca dissuadir Jesus de prosseguir o seu caminho, os discípulos, no segundo anúncio, mergulhados na incompreensão, são tomados pela tristeza e, no terceiro anúncio da paixão, nosso texto de hoje, a mãe dos filhos de Zebedeu reivindica para os seus dois filhos um lugar de privilégio. O pedido da mãe para os seus dois filhos deseja o melhor para eles, mas é fruto da sua incompreensão acerca do mistério de Cristo e da vida cristã. O que é difícil compreender e aceitar é que a verdadeira recompensa está em ser admitido ao seguimento de Jesus e participar de sua vida e da sua paixão. O que importa é a decisão livre de ir até o fim com Jesus: à pergunta de Jesus a João e Tiago “podeis beber do cálice que eu vou beber”, eles responderam: “Podemos”. O ditado popular diz: “o futuro a Deus pertence”; o importante é a disposição para viver hoje toda a exigência do seguimento de Jesus Cristo, pois, o que vem depois pertence unicamente a Deus. Diante do pedido da mãe de Tiago e João, os outros dez ficaram irritados contra os dois irmãos. A irritação não é porque eles vêm a insensatez do pedido, mas porque se perguntam: E nós? Qual lugar para nós? Aos discípulos, a nós todos, no entanto, compete construirmos uma comunidade em cujo centro esteja o serviço generoso, desprovido de qualquer ambição pelo poder. O desejo de poder tem como consequência o esquecimento do outro.

P. Carlos Alberto Contieri, SJ.

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Textos: Is 1, 10.16-20; Sl 40(50); Mt 23, 1-12.

 

Todo o capítulo 23 de Mateus é uma dura crítica de Jesus aos escribas e fariseus em razão da hipocrisia deles. Eles pretendem que o ensinamento que realizam sobre a Lei é feito sob a autoridade de Moisés, isto é, que ele traduz fielmente o espírito e o sentido da Lei e, em consequência, o modo de praticá-la. No entanto, o comportamento deles não corresponde à Lei que eles ensinam: eles falam e não praticam (v. 3). Há uma distância entre o que eles ensinam e o que eles fazem. O modo como eles ensinam e fazem praticar os preceitos equivale a um fardo pesado posto sobre os ombros dos outros, fardo que eles mesmos não carregam. A religião que eles praticam é hipocrisia, pura encenação, duplicidade, expressão da vaidade, inclusive religiosa, que encerra o indivíduo em si mesmo; o coração deles não está no que eles fazem, pois, na verdade, eles buscam serem vistos, reconhecidos e elogiados pelos homens (v.5). Eles, de fato, não estão a serviço da Palavra de Deus que eles ensinam e obrigam a praticar (vv. 2-3a), mas a serviço de si mesmos. A hipocrisia faz com que eles busquem os seus próprios privilégios, esquecendo-se da misericórdia a que estão obrigados. Para a comunidade cristã, a hipocrisia deve ser rejeitada veementemente, e o comportamento dos escribas e fariseus não pode se constituir em norma de conduta para os que desejam seguir Jesus. Dos discípulos de Cristo é exigido um comportamento totalmente diferente, enraizado na própria vida e no ensinamento de Jesus: o Filho do homem veio para servir e dar a sua vida como resgate por muitos (Mt 20,28). A vida cristã, não o esqueçamos, é “imitação de Jesus Cristo”, por isso, um serviço a Deus e aos nossos semelhantes.

P. Carlos Alberto Contieri, SJ.

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Textos: Dn 9, 4b-10; Sl 78(79); Lc 6, 36-38.

 

Nosso texto é parte do que, no evangelho segundo Lucas, denomina-se “sermão da planície” (6, 17-49); é a sequência do chamado dos Doze sobre a montanha, onde Jesus passou a noite inteira em oração (6, 12-16). A nossa perícope é parte do trecho tematicamente dominado pelo imperativo do amor aos inimigos (vv. 27-35). A primeira parte do v. 36 equivale ao que, no evangelho segundo Mateus, é o imperativo à perfeição: Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito (Mt 5, 48). Em primeiro lugar, é preciso compreender que o imperativo de Lc 6, 36 (Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso) se baseia no que Deus é: Misericordioso. A perfeição consiste em viver plenamente a misericórdia. A misericórdia de Deus se manifesta, ao longo de toda a história, através de seu amor e de sua bondade para com todos, ingratos e maus (cf. v. 35). A misericórdia de Deus se exprime na acolhida dada por Jesus aos pecadores (cf. Lc 5, 29-32; 7, 36-50; 15, 1ss; 19, 1-10). Cada um, independentemente de sua situação, pôde ou pode experimentar a misericórdia de Deus em relação a si mesmo. É com essa mesma misericórdia, recebida como dom do infinito amor de Deus, que se exige tratar os outros. O amor aos inimigos não é uma ideia; ele se concretiza na renúncia a julgar, isto é, condenar alguém (v. 37a . 37b), na disposição permanente e renovada de perdoar (v. 37c) e de entregar-se a si mesmo (v.38a), como o Senhor se entregou para a salvação de toda a humanidade.

Nós estamos em pleno Jubileu da Misericórdia, inaugurado pelo Papa Francisco, no último dia 8 de dezembro, com a abertura da “Porta Santa”. A misericórdia, diz o Papa, “é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado” (Misericordiae Vultus, 2). O jubileu é uma oportunidade de “tornar mais forte e eficaz o testemunho dos fiéis.

P. Carlos Alberto Contieri, SJ.

 

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Texto: Ez 18, 21-28; Sl 129(130); Mt 5, 20-26.

No início do sermão da montanha Jesus dá como que um critério a partir do qual a releitura e a prática da Lei devem se apoiar: superação do rigorismo legalista pelo amor, a misericórdia e o respeito pelo outro. Mais adiante, no Evangelho, Jesus, citando Oséias, diz: Ide, pois, e aprendei o que significa: “Misericórdia quero, e não o sacrifício” (Mt 9, 13; cf. Os 6,6). É em Jesus que se vê realizada esta justiça maior que a dos escribas e fariseus, pois ele nos amou até o fim (cf. Jo 13, 1), como Bom Pastor, deu a sua vida por nós (cf. Jo 10, 15.17.18). Ninguém tem maior amor, diz Jesus,  do que aquele que dá a vida por seus amigos (Jo 15, 13).

No evangelho deste dia, através do mandamento de “não matar”, Jesus explicita como superar pelo amor, pela misericórdia e pelo cuidado com o outro a letra da Lei. Não se trata simplesmente da interdição de tirar a vida de alguém (cf. Ex 20, 3; Dt 5, 7), mas é proibido, na nova lei, depreciar o semelhante dando a ele títulos ofensivos. Não é somente a morte física que é visada na interdição, mas toda ofensa moral cometida contra o irmão (v. 22). Ao discípulo Jesus impõe, ainda, a exigência de tomar a iniciativa no processo de reconciliação. A reconciliação é condição anterior e é exigida para a oferta de um verdadeiro sacrifício. Nós poderíamos dizer, a reconciliação é o sacrifício que agrada a Deus. O esforço de reconciliação requerido e visado nesta antítese é uma explicitação da bem-aventurança da mansidão (5, 4). “Manso” (cf. Sl 37, 11), em hebraico, corresponde a “pobre”, entenda-se, pobre de espírito (cf. 5, 3), isto é, aquele que reconhece e acolhe o Reino de Deus como dom.

No discurso de encerramento do Sínodo dos Bispos, em outubro de 2015, o Papa Francisco disse: “… a experiência do Sínodo nos fez compreender melhor que os verdadeiros defensores da doutrina não são aqueles que defendem a letra, mas, o espírito; não as ideias, mas, o homem; não as fórmulas, mas a gratuidade do amor de Deus e do seu perdão. Isto não significa, de modo algum, diminuir a importância das fórmulas: são necessárias a importância das leis e dos mandamentos divinos, mas exaltar a grandeza do verdadeiro Deus, que não nos trata segundo os nossos méritos e, nem tampouco, segundo as nossas obras, mas unicamente segundo a generosidade ilimitada da sua Misericórdia (cf. Rm 3, 21-30; Sl 129; Lc 11, 37-54)”.

P.Carlos Alberto Contieri, SJ

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Textos: Est 4,17; Sl 137(138); Mt 7, 7-12.

 

O texto do evangelho deste dia é um convite à oração de súplica confiante; nesse tipo de oração nós confessamos nossa própria miséria uma vez que nós não podemos nos dar o que nós pedimos, nem sabemos se o que nós desejamos é o que Deus quer para a nossa vida. É necessário, no entanto, empenho para conhecer a vontade de Deus. Nosso texto de hoje, é parte do sermão da montanha (Mt 5-7) em que que Jesus é apresentado como o intérprete da Lei de Moisés. Mas, por que pedir se Deus sabe tudo e conhece profundamente cada pessoa (cf. Sl 138)? Em primeiro lugar, a súplica vale para nós, isto é, ela nos permite reconhecer que tudo o que é bom para a vida do ser humano procede do Pai (v. 11). Em segundo lugar, porque a súplica em favor das necessidades dos outros e das suas próprias, abre a pessoa de fé para a relação filial com Deus Pai, que é a fonte de todo verdadeiro bem. A regra de ouro citada no v. 12, bem anterior ao Novo Testamento, é não somente conclusão do trecho em questão, mas de toda a seção do sermão da montanha que trata da conduta a ser adotada em relação ao próximo. A regra de ouro é uma regra de solidariedade, que possibilita a convivência pacífica e respeitosa, anterior ao nosso texto e conhecida no mundo pagão. Eclo 31,14-15 apresenta um exemplo de aplicação dessa regra: Não estendas a mão para onde teu hospedeiro olha, reflete sobre essas coisas.

Nenhuma de nossas súplicas a Deus cai por terra, pois ele se interessa pela nossa vida; os nossos sofrimentos, angústias e gritos ele os vê e os escuta. Mas, seria um grande equívoco de nossa parte pensar que Deus tem obrigação de nos conceder o que pedimos ou que nós tenhamos algum direito sobre a sua graça. A nossa súplica deve ser cheia de confiança e entrega, pois é Deus quem sabe o que é melhor e em que tempo conceder o que ele julgar ser bom para nós. A Rainha Ester, vendo sua vida ameaçada, suplica a Deus nestes termos: Vem em meu socorro, pois estou só e não tenho outro defensor fora de ti, Senhor (Est 4, 7q). Há quem diga: “se eu pedir com fé, Deus me concederá”. O que Deus nos dá, ele o faz porque ele é bom, não em razão de nossa fé. Nossa fé, a que recebemos dos Apóstolos, abre o coração para receber generosamente o que é de Deus; ela não pode se constituir em objeto de troca ou pressão sobre Deus. Nós podemos fazer nossas as palavras do salmista: Eu agradeço vosso amor, vossa verdade, porque fizestes muito mais que prometestes; naquele dia em que gritei, vós me escutastes e aumentastes o vigor da minha alma (Sl 137(138), 2).

 

P. Carlos Alberto Contieri, SJ.

 

 

 

 

 

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