Igreja São José de Anchieta

Ao longo de mais de quatrocentos anos, a Igreja do Colégio passou por grandes transformações. De cabana em 1554, a igreja ganhou contornos da arquitetura colonial jesuítica durante o século XVII e sofreu com o abandono após a expulsão dos jesuítas no século XVIII. Em fins do século XIX decidiu-se, através de um acordo entre o Bispado de São Paulo e o Governo da Província, pela demolição do templo em lugar da reconstrução, após o desabamento de parte de seu telhado durante uma tempestade em 1896. Já no século XX, após a devolução do Pateo do Collegio para a Companhia de Jesus como um dos marcos iniciais das comemorações do Quarto Centenário da Cidade em 1954, a igreja pôde ser reconstruída sendo inaugurada em 1979. Em 1980 o padre José de Anchieta passa a ser seu padroeiro após ser beatificado pelo papa João Paulo II. Em 2009 a igreja passa por sua última reforma onde se buscou a unidade entre a celebração e o espaço litúrgico. Finalmente em 2014 a igreja tem seu padroeiro canonizado pelo papa Francisco e passa a se chamar “Igreja São José de Anchieta”. É neste ambiente amplo e com decoração única que a igreja acolhe seus fiéis nas missas cantadas, sempre acompanhadas pelo órgão de aproximadamente mil tubos sob a direção da Schola Cantorum, e nas celebrações de batismos e casamentos.

São José de Anchieta

São José de Anchieta

Aos 19 de março de 1534, em São Cristovão de Laguna, Ilhas Canárias, nasceu José de Anchieta.

Terceiro de 12 irmãos, filho de Mencia Dias de Clavijo e Llerena e João Lopez de Anchieta, de origem basca, que emigrou para as Ilhas Canárias (1522) por ter se envolvido na revolta dos comuneros. Aí recebeu auxílio de um membro distante de sua família, o cavaleiro Inácio de Loyola.

O menino Anchieta, desde sua infância, dedicou sua vida à oração e ao auxílio do próximo.

No ano de 1548, foi enviado por seus pais à Coimbra para se matricular no Colégio das Artes, onde se destacou no aprendizado da poesia latina. Neste mesmo ano, na velha Catedral de Coimbra, em frente ao altar de Nossa Senhora, que o jovem José de Anchieta entregou sua vida plenamente, realizando seu voto de perpétua castidade.

Dentro de pouco tempo, conheceu a ordem religiosa fundada por Inácio de Loyola, identificando-se com os seus ideais, o que fez de seu ingresso na Companhia de Jesus algo natural. Respondeu ao chamado de Cristo em 1º de maio de 1551, com 17 anos.

Por razão de uma grave enfermidade — não se sabe ao certo qual — que sofreu um deslocamento em sua espinha dorsal. Tal enfermidade o acompanharia ao longo de sua vida e teria sido um dos motivos para sua vinda ao Brasil, na esperança de uma melhora ou, até mesmo, uma cura.

Em 8 de maio de 1553, saía de Lisboa na esquadra de D. Duarte da Costa, o então noviço da Companhia, José de Anchieta, na terceira missão jesuítica, chefiada pelo P. Luis da Grã, acompanhado dos padres Ambrosio Pires e Braz Lourenço e dos irmãos João Gonçalves, Antonio Blasquez, Gregório Serrão; desembarcam em Salvador, permanecendo por aproximadamente três meses. Aí Anchieta iniciou ali seus estudos da língua indígena.

Passam em seguida pela Vila de São Vicente e seguem para a missão nos Campos de Piratininga, coordenada pelo P. Manuel de Nóbrega.

Com o objetivo primeiro de catequizar os indígenas, construiu-se, com ajuda do cacique Tibiriçá, uma cabana de pau-a-pique que servia simultaneamente de escola, capela, enfermaria, dormitório, refeitório e cozinha.

Aos 25 de janeiro de 1554, realizaram uma celebração eucarística de inauguração do colégio dos jesuítas, que recebeu o nome de Colégio de São Paulo em homenagem ao dia de conversão do Apóstolo São Paulo. Dois anos mais tarde terminaram o grande colégio com o empenho do P. Afonso Brás, auxiliado pelos nativos e construído em taipa de pilão. Em torno deste colégio surgiu o povoado que deu origem à cidade de São Paulo.

Neste colégio, José de Anchieta catequizava e lecionava Humanidades, como artes, poesia e teatro. Também confeccionava roupas e alpargatas, trabalhava na construção de casas e atendia como boticário — prática que pôde ser aperfeiçoada devido ao seu estreito relacionamento com os indígenas e decorrente aprendizagem das técnicas nativas, o que deu início a avanços médicos na região.

Auxiliado pelos curumins, seus primeiros tradutores, e tendo a facilidade de aprender novas línguas, escreveu uma gramática do Tupi, a língua mais falada no Brasil. Desta forma pôde traduzir o catecismo e o evangelho para esta língua.

No ano de 1563, durante a guerra entre tamoios e tupiniquins, Anchieta se fez refém na praia de Iperoig para auxiliar o fim do conflito. Enquanto isso, P. Manuel da Nóbrega negociava com as partes envolvidas na batalha na tentativa de restabelecer a paz.

Apoiado em sua fé, que lhe dava a certeza de que iria sobreviver e que a paz seria alcançada, Anchieta escreveu seu famoso Poema à Virgem, com mais de 5 mil versos. Este poema figura entre as grandes obras do Renascimento.

Em 22 de agosto de 1566 foi ordenado sacerdote na Bahia. Logo após sua ordenação acompanhou o P. Inácio de Azevedo, Visitador do Brasil, e ficou no governo das casas de São Vicente e São Paulo de 1567 até 1577. Nesse ano retornou à Bahia, onde esperava ser designado à reitoria do colégio de Salvador, porém foi destinado a ser o Provincial do Brasil.

Em 1585 pediu dispensa do cargo de Provincial devido ao agravamento de suas enfermidades, pois este cargo exigia visitas anuais a todas as casas da Província. Em 1588 é finalmente substituído, sendo destinado como Superior das casas do Espírito Santo, onde volta ao trabalho missionário com os indígenas, o que fez até o final de sua vida. Faleceu em 9 de junho de 1597 em Reritiba, atual cidade de Anchieta.

Seu corpo foi levado nos ombros dos índios para a Igreja de Santiago, em Vitória, local que poderia atender melhor aos peregrinos que procuravam por bênçãos e milagres do então chamado “Apóstolo do Brasil”.

Doze anos após a morte de Anchieta, em 1609, foi feita a exumação de seus restos mortais, que foram transladados para a Catedral de Salvador na Bahia a pedido do Geral da Companhia de Jesus, P.Claudio Acquaviva. Entretanto, o fêmur permaneceu exposto na Igreja de Santiago até 1610, quando foi transferido para Roma, permanecendo durante três séculos e meio.

Desde quando José de Anchieta era ainda moço, espalhou-se a fama de suas virtudes. Ser comparado ao “Ir. José” era ser comparado a um santo.

Após a expulsão dos jesuítas do Brasil, em 1759, o Superior da Companhia de Jesus na Bahia, a pedido do Marquês de Pombal, e em nome do rei D. José I, enviou para Portugal o baú de jacarandá contendo ossos humanos e o manto de tecido castanho claro que teriam sido de José de Anchieta. Este baú foi encontrado em 1964 na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, fato amplamente noticiado pela imprensa portuguesa da época.

Já no ano de 1971 o Governo de São Paulo, juntamente com os jesuítas, solicitou à Portugal o retorno do baú com os ossos e o manto, o que ocorreu ao final da década de 1980. O manto passou ficar exposto na Capela de Anchieta, no Pateo do Collegio. Inteiramente restaurado, este manto que pertenceu a Anchieta passou a integrar este Oratório, espaço dedicado ao Santo, na Capela do Pateo do Collegio (grafia original). Neste período, o fêmur que estava em Roma desde 1610, retornou para o Brasil e ficou exposto juntamente com o manto.

Embora a campanha para a sua beatificação tenha sido iniciada na Capitania da Bahia em 1617, só foi beatificado em junho de 1980 pelo Papa João Paulo II. Ao que se compreende, a perseguição do Marquês de Pombal aos jesuítas havia impedido o trâmite do processo iniciado no século XVII.

Após 397 anos de abertura do processo de canonização, em 3 de Abril de 2014, é canonizado São Jose de Anchieta, pelo P. Francisco em cerimônia no Vaticano.


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