TERÇA-FEIRA XX DO TEMPO COMUM – A.D. 2016

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Textos: Ez 28, 1-10; Sl (Dt 32); Mt 19, 23-30.

 

Em continuidade como episódio do jovem rico, o evangelho de hoje apresenta que, de fato, a riqueza pode se constituir em um obstáculo intransponível para entrar na comunhão com Deus. A preocupação desordenada com o ter entrava a liberdade e impede a pessoa de confiar e depender unicamente de Deus. Nesse sentido, o ter pode ser, e é, expressão da idolatria. Frente à intervenção dos discípulos – “quem poderá salvar-se?” (v. 25) – Jesus responde que tudo está remetido à misericórdia divina, pois a salvação é dom de Deus. Ademais, para Deus nada é impossível (cf. v. 26; Lc 1, 37). A teologia da retribuição contaminou desde há muito tempo a relação do povo com seu Deus. A pergunta de Pedro a Jesus “que haveremos de receber?” (v. 27), uma vez que deixamos tudo para te seguir, é expressão dessa teologia da retribuição. A resposta de Jesus aponta para a escatologia e promete, para os que permanecerem fiéis no seu seguimento, a participação no juízo do mundo (cf. v. 28; 25, 31). O cêntuplo prometido é o reconhecimento de Deus do valor inestimável de cada pessoa e a participação dela na vida divina. É preciso insistir: cada um deve se esforçar, segundo suas possibilidades, por entrar no reino dos céus. No entanto, a salvação não é medida por esse esforço, pois ela é dom de um Deus que torna possível o que aos olhos do mundo parece impossível.

P. Carlos Alberto Contieri, SJ.

 

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Textos: 2Co 9, 6-10; Sl 11(112); Jo 12, 24-26.

 

Jesus está em Jerusalém para a festa da Páscoa (cf. 12, 12). Aproxima-se o tempo da sua glorificação (cf. Jo 12, 23), isto é, da revelação de sua origem divina que se realizará por sua paixão e morte. A imagem do grão de trigo ajuda a compreender o caminho de glorificação de Jesus. Para produzir fruto o grão de trigo tem que cair na terra; esta queda na terra é a condição da fecundidade da semente. A paixão e morte de Jesus, seu sofrimento e sua morte, não foram em vão; elas nos garantiram a salvação e a redenção de todo o gênero humano. Aqui, em João, o grão é identificado ao próprio Cristo, à diferença das parábolas do Reinos dos céus (Mt 13, 3ss) que a semente é identificada com a Palavra de Deus. Na verdade, segundo a teologia joanina, Jesus é a palavra encarnada de Deus. Com esta pequena parábola do grão de trigo que cai na terra, Jesus dá sentido à sua paixão e morte: é para “produzir muito fruto” (v. 20). O fruto de sua glorificação é a vida do mundo (cf. Jo 6, 51). O que se espera do discípulo é sua identificação com o Mestre (cf. Mt 10, 24-25). Esta identificação impõe ao discípulo aceitar livremente a vida proposta por Jesus. Neste sentido, o caminho de glorificação de Jesus é o caminho que o discípulo deve aceitar percorrer (cf. v. 26; Jo 13, 12-15). A vida verdadeira está no desapego das coisas deste mundo e também no desprendimento da própria vida (cf. v. 25). É o apego à vida que gera o medo de perdê-la. A vida brota do grão de trigo que cai na terra. Esta entrega é fruto do amor; “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15, 13).

P. Carlos Alberto Contieri, SJ.

 

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Textos: Ez 2, 8-3,4; Sl 118(119); Mt 18, 1-5.10.12-14.

 

O trecho do evangelho desse dia é denominado discurso eclesiológico. O discurso sobre a Igreja é constituído de uma série de orientações de por Jesus aos discípulos que visam dar, em primeiro lugar, frente ao judaísmo rabínico, os traços característicos da comunidade cristã. Essas orientações, contudo, não se encerram num momento histórico específico, ao contrário, são exigências para a Igreja de todos os tempos. A pergunta dos discípulos a Jesus (Quem é o maior no reino dos céus?) revela as disputas internas à comunidade cristã. A resposta de Jesus poderia ser compreendida nesses termos: o maior é o menor, aquele que serve. O serviço é um traço característico do discípulo e da comunidade cristã. Mas para que seja um modo de vida, é preciso conversão, mudança radical de mentalidade. A “criança”, aqui, é símbolo do próprio Cristo que se fez servo de todos e que, sendo de condição divina, assumiu plenamente a nossa humanidade (Fl 2, 6-7a). Os “pequenos” são os que se sentem desprezados (v. 10) e que são tentados a abandonar a fé. Por eles é exigida da comunidade cristã uma atenção especial para que ninguém se perca, a exemplo do pastor que incansavelmente vai atrás da ovelha que se perdeu até encontrá-la. Na vida cristã, a ideologia do “cada um por si” não pode ser aceita como válida, nem muito menos motivar qualquer decisão. Na Igreja, cada membro é importante e deve ser tratado com o mesmo cuidado com que Deus mesmo cuida de cada um de nós.

P. Carlos Alberto Contieri, SJ.

 

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Texto: Ez 18, 21-28; Sl 129(130); Mt 5, 20-26.

No início do sermão da montanha Jesus dá como que um critério a partir do qual a releitura e a prática da Lei devem se apoiar: superação do rigorismo legalista pelo amor, a misericórdia e o respeito pelo outro. Mais adiante, no Evangelho, Jesus, citando Oséias, diz: Ide, pois, e aprendei o que significa: “Misericórdia quero, e não o sacrifício” (Mt 9, 13; cf. Os 6,6). É em Jesus que se vê realizada esta justiça maior que a dos escribas e fariseus, pois ele nos amou até o fim (cf. Jo 13, 1), como Bom Pastor, deu a sua vida por nós (cf. Jo 10, 15.17.18). Ninguém tem maior amor, diz Jesus,  do que aquele que dá a vida por seus amigos (Jo 15, 13).

No evangelho deste dia, através do mandamento de “não matar”, Jesus explicita como superar pelo amor, pela misericórdia e pelo cuidado com o outro a letra da Lei. Não se trata simplesmente da interdição de tirar a vida de alguém (cf. Ex 20, 3; Dt 5, 7), mas é proibido, na nova lei, depreciar o semelhante dando a ele títulos ofensivos. Não é somente a morte física que é visada na interdição, mas toda ofensa moral cometida contra o irmão (v. 22). Ao discípulo Jesus impõe, ainda, a exigência de tomar a iniciativa no processo de reconciliação. A reconciliação é condição anterior e é exigida para a oferta de um verdadeiro sacrifício. Nós poderíamos dizer, a reconciliação é o sacrifício que agrada a Deus. O esforço de reconciliação requerido e visado nesta antítese é uma explicitação da bem-aventurança da mansidão (5, 4). “Manso” (cf. Sl 37, 11), em hebraico, corresponde a “pobre”, entenda-se, pobre de espírito (cf. 5, 3), isto é, aquele que reconhece e acolhe o Reino de Deus como dom.

No discurso de encerramento do Sínodo dos Bispos, em outubro de 2015, o Papa Francisco disse: “… a experiência do Sínodo nos fez compreender melhor que os verdadeiros defensores da doutrina não são aqueles que defendem a letra, mas, o espírito; não as ideias, mas, o homem; não as fórmulas, mas a gratuidade do amor de Deus e do seu perdão. Isto não significa, de modo algum, diminuir a importância das fórmulas: são necessárias a importância das leis e dos mandamentos divinos, mas exaltar a grandeza do verdadeiro Deus, que não nos trata segundo os nossos méritos e, nem tampouco, segundo as nossas obras, mas unicamente segundo a generosidade ilimitada da sua Misericórdia (cf. Rm 3, 21-30; Sl 129; Lc 11, 37-54)”.

P.Carlos Alberto Contieri, SJ

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