QUARTA-FEIRA IV DA QUARESMA

Exemple

Textos: Is 49, 8-15; Sl 145(144); Jo 5, 17-30.

 

O trecho do livro do profeta Isaías que temos como primeira leitura traz à memória os fatos do século VI a.C., período do exílio, na Babilônia. A situação do povo é de desânimo, falta de esperança no regresso à terra onde eles pensavam ser o único lugar da habitação de Deus. O povo se deixava levar pela tentação de murmurar contra Deus, pois, pensava que Deus o havia esquecido e abandonado. A distância entre o tempo do exílio e o nosso, mesmo com a Encarnação do Verbo eterno de Deus e sua ressurreição, não nos permitiu, em muitas situações de nossa vida, mudar de mentalidade; de muitas formas, às vezes sutis, nós continuamos a cair na tentação de acusar Deus de abandono, descaso, esquecimento, como se Deus não estivesse presente em nossa vida e naquelas situações por vezes dramáticas da existência humana. De Deus eles ouviram uma palavra que os corrigia e os animava, palavra que teve também repercutir no mais profundo do nosso coração: “Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto do seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém, não me esquecerei de ti”. De Jesus Cristo, ressuscitado dentre os mortos, nós ouvimos esta palavra que nos enche de entusiasmo e confiança: “Eu estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28,20).

O episódio do evangelho de hoje, é a sequência do episódio anterior, que nós lemos e comentamos no dia de ontem; ele é a ampliação da resposta de Jesus à objeção e incredulidade dos judeus. Jesus fundamenta seu agir misericordioso, em dia de sábado, fazendo recurso ao trabalho incessante e ininterrupto do Pai em favor de toda a humanidade. O Pai trabalha sempre! A missão de Jesus é expressão de sua profunda união com o Pai. A Comunhão com o Pai faz com que o Filho faça a obra de quem o enviou. A afirmação do v. 17 (Meu Pai trabalha sempre, e eu também trabalho) encontra apoio em Dt 5, 12-15, em que não se diz que Deus descansa, mas que o homem deve repousar para poder fazer memória de como Deus libertou o seu povo da “casa da servidão”. Essa memória exige tornar presente, sobretudo no dia de sábado, a mesma ação de Deus que libertou o seu povo da escravidão. O texto nos oferece, ainda, o motivo da condenação à morte de Jesus: violação do sábado e blasfêmia, fazer-se igual a Deus. A “posse” da vida eterna se dá por uma dupla atitude: escuta da Palavra de Jesus e fé no Pai que o enviou. Daí que a vida eterna não é algo prometido para além da morte, mas uma realidade a ser vivida enquanto se é peregrino neste mundo. O que santifica o tempo não é propriamente o descanso sabático, mas o amor e a misericórdia.

P. Carlos Alberto Contieri, SJ.

 


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