QUARTA-FEIRA II DA QUARESMA

Exemple

Textos: Jr 18, 18-20; Sl 30(31); Mt 20, 17-28.

 

Esse trecho do livro do profeta Jeremias é dos textos que caracterizamos como autobiográficos. Jeremias vê-se perseguido, traído e ameaçado de morte pelos membros do seu próprio povo, ele que foi chamado e enviado pelo Senhor como “profeta das nações” (Jr 1, 5). Jeremias, dos profetas mais brilhantes, é perseguido e ameaçado por apontar aos senhores de Judá e Jerusalém o seu mal e a necessidade de conversão: “… cada qual volte atrás do seu mau caminho, melhore o modo de viver e de agir” (18, 11). Mas, o profeta sabe que pode contar com Deus e manter sua fé e sua missão porque a sua proteção é o Senhor: “Não tenhas medo deles, pois, estou contigo para defender-te” (1, 10). O salmo traduz bem a súplica confiante de Jeremias: “Retirai-me desta rede traiçoeira, porque sois o meu refúgio protetor” (Sl 30, 1). É preciso compreendermos que viver a maravilhosa aventura da fé tem como consequência diferentes modos de perseguição e a tentação de abandonar a missão e o seguimento de Jesus Cristo. Mas, “para onde iremos”? Refugiarmo-nos numa vida aparentemente cômoda? Deixar cair por terra a Palavra de Deus? Renunciar a ousadia de buscar e encontrar o tesouro e a pérola? Não! Jamais! É preciso manter os olhos fixos em Cristo e deixar ressoar no mais profundo do coração sua palavra: “Eu estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28, 20).

No caminho de subida para Jerusalém, Jesus faz para os doze discípulos o terceiro anúncio da sua paixão, morte e ressurreição (ver: Mt 16, 21; 17, 22-23). Trata-se de uma prolepse que interessa ao ouvinte e ao leitor do evangelho. A finalidade desta antecipação literária é prevenir o discípulo de todos os tempos contra o escândalo da paixão e da morte do Senhor. A esperança da ressurreição deve sustentar a vida de todo aquele que, livremente, aceita o chamado de seguir Jesus Cristo no caminho que o conduz ao Pai.

É importante notar que, depois de cada um dos três anúncios, se manifesta a incompreensão e a rejeição dos discípulos acerca do destino de Jesus e do desígnio salvífico de Deus: Pedro busca dissuadir Jesus de prosseguir o seu caminho, os discípulos, no segundo anúncio, mergulhados na incompreensão, são tomados pela tristeza e, no terceiro anúncio da paixão, nosso texto de hoje, a mãe dos filhos de Zebedeu reivindica para os seus dois filhos um lugar de privilégio. O pedido da mãe para os seus dois filhos deseja o melhor para eles, mas é fruto da sua incompreensão acerca do mistério de Cristo e da vida cristã. O que é difícil compreender e aceitar é que a verdadeira recompensa está em ser admitido ao seguimento de Jesus e participar de sua vida e da sua paixão. O que importa é a decisão livre de ir até o fim com Jesus: à pergunta de Jesus a João e Tiago “podeis beber do cálice que eu vou beber”, eles responderam: “Podemos”. O ditado popular diz: “o futuro a Deus pertence”; o importante é a disposição para viver hoje toda a exigência do seguimento de Jesus Cristo, pois, o que vem depois pertence unicamente a Deus. Diante do pedido da mãe de Tiago e João, os outros dez ficaram irritados contra os dois irmãos. A irritação não é porque eles vêm a insensatez do pedido, mas porque se perguntam: E nós? Qual lugar para nós? Aos discípulos, a nós todos, no entanto, compete construirmos uma comunidade em cujo centro esteja o serviço generoso, desprovido de qualquer ambição pelo poder.  O desejo de poder tem como consequência o esquecimento do outro.

P.Carlos Alberto Contieri, SJ.

 


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